quinta-feira, 18 de junho de 2009


Ó noite, flor acesa, quem te colhe?
Sou eu que em ti me deixo anoitecer,
Ou o gesto preciso que te escolhe
Na flor dum outro ser?

Sophia de Mello Brevner Andresen-

Noite


Lá vem a noite, que sequestra a claridade nos impondo a escuridão.Que sossega tantos sonhos num manto de saudade, soluços e mansidão.
Noite que se apaixona, na penumbra dos amantes, no fascínio do brilhar.Que não vê, mas insinua, uma poesia nua brincando no seio lunar.
Quantas faces ela tem no semblante ofuscado, no véu da rua vazia,?Que sem piedade anuncia a tristeza adocicada, em dolorosa alegria.
Noite das vozes roucas que engasgam solidão, no pranto de ébrias canções.Dos sonos aprisionados, dos olhos arregalados em retratos de ilusões.
O que te faz tão minha, neste assombro turvo de beleza e atração?São teus segredos guardados, junto aos meus predestinados na busca da inspiração...

Charlyane Mirielle

MEDO


Escalando uma montanha
Com o medo a me acompanhar
Sigo a risca a façanha De ao topo chegar...

Com as pernas sempre a tremer
Sigo firme e forte
Sem jamais estremecer!

E chegando ao topo
Vejo a recompensa
De que tudo posso olhar
Olhar para a imensa vista
Sem me cansar!

Gabriel Fernando Ribeiro Gripp

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dorA dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

Fernando Pessoa